segunda-feira, 18 de abril de 2011

Plotino – Emanação

Em uma primeira e superficial leitura de Plotino, é possível, e muito provável, entender a gênesis das hipóstases (o Intelecto e a Alma, os seres verdadeiramente existentes no mundo inteligível ou espiritual) e do mundo sensível, como um processo de emanação. Eu mesmo cometi este equívoco. No entanto, há algo distinto na filosofia plotiniana sobre o surgimento das hipóstases que não nos permite denominá-la de teoria da emanação.
A teoria da emanação parte do princípio que há um processo histórico ou físico na essência do Deus primeiro, e a partir deste processo, tem início uma sequencia sem fim de surgimentos de novos seres, uns a partir dos outros. No processo inicial, certa porção da substancia do Deus primeiro flui para o ser gerado imediatamente após ele, e este processo se repete nas sequencias posteriores, sendo que, em cada etapa, acontece uma transformação substancial e essencial dos novos seres, obscurecendo e enfraquecendo-os. Quanto mais distantes do processo inicial e do Deus primeiro, mais obscuros e fracos se tornam os seres que vieram a ser através do processo de emanação.
Se a teoria da emanação for definida nestes termos, então não há como compatibilizá-la com a visão de Plotino do Uno, do Bem, do Deus absoluto, que descansa em si mesmo e é suficiente a si mesmo, no qual não há absolutamente nenhum movimento e nenhuma transformação, e muito menos, um processo histórico ou físico de emanação.
Plotino nos apresenta o surgimento de somente dois seres a partir do Uno, o Intelecto e a Alma. Não há uma interminável e automática sequencia de surgimentos de novos seres a partir do Uno. Os atos de surgimento do Intelecto e da Alma são descritos de forma figurativa por Plotino, no entanto, sem menção da teoria da emanação. E, além disso, segundo Plotino, o Uno não perde nada de si e de sua essência na geração destes novos seres, ele permanece imutável em si mesmo, e na aura de seu poder os novos seres vem a ser. Plotino utiliza simbolicamente, e consciente das deficiências, o exemplo do fogo para explicar a gênesis das hipóstases. O fogo permanece em si mesmo e, no entanto, aquece o que está ao seu redor pela a aura do seu calor. (En. V, 1, cap. 3)
Assim sendo, não há uma teoria da emanação propriamente dita em Plotino, e sim, uma atuação do poder da aura do Uno que permanece em si imutável e absoluto.

Com base em: Richter, Arthur. Neu-Platonische Studien – Halle 1867. Heft I, pág. 47- 48

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