segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Plotino – A Ordem e Organização de Seus Textos – Parte I

    Após ter salientado as dificuldades na leitura e compreensão dos textos de Plotino, desejo analisar brevemente, qual a melhor forma de se aproximar desta obra, levando em conta dois tipos de leitura. A leitura crítico contemplativa e a leitura crítico filosófica. A primeira, busca nos textos de Plotino, a inspiração, a base filosófica, e a argumentação apologética para as suas crenças religiosas, doutrinas, e seus dogmas. Esta foi, muito provavelmente, a leitura adotada por alguns patrícios do cristianismo ao estudarem Plotino, como por exemplo, Augustinho, Eusebius e Basilius Magnus. Há sem duvida, uma criticidade nesta leitura, e parte da filosofia de Plotino é interpretada corretamente, no entanto, esta leitura é permeada e fundamentada por uma crença de cunho quase irrefutável, o que dificulta a compreensão da real filosofia de Plotino. (Sobre os patrícios ver: RICHTER, Heft I, pág. 4-5). O segundo tipo de leitura, a leitura crítico filosófica, pode, por sua vez, ser subdividida em crítico filosófica filológica e crítico filosófica intelectual. A filológica se concentra no estudo histórico e contextual da linguagem utilizada por Plotino, para exprimir seus pensamentos, a leitura intelectual, se concentra no pensamento próprio do filósofo. Ambas se baseiam em neutralidade, tanto quanto possível, perante os textos, sem procurar ler doutrinas ou crenças posteriores a Plotino, em seus escritos, e nem impor a eles, certos sistemas modernos ou contemporâneos, como o hegeliano ou outro qualquer. A leitura crítico filosófica intelectual é a que adotamos neste Blog.
    Plotino redigiu seus textos já com idade avançada e os entregou a Porfírio, um de seus estudantes, com a incumbência de organizá-los e divulgá-los. Após a morte de Plotino, Porfírio levou a cabo sua incumbência, reorganizando os textos de seu mestre, e divulgando-os juntamente com uma breve biografia de Plotino, denominada, Vita Plotini. Mais tarde,  Porfírio divulgou também, um comentário sobre alguns tratados das Enéadas (Versão em inglês por: GUTHRIE, KENNETH SYLVAN. Plotino Complete Works, Londres, 1918).
    Porfírio é merecedor de nossa profunda gratidão, pois não fosse o seu senso de responsabilidade para com o seu mestre, talvez não tivéssemos em mãos, tais preciosidades de pensamento em forma escrita. No entanto, Porfírio se deixou levar por exemplos da época, e permitiu-se fazer uma brincadeira numérica (RICHTER, Heft I, pág. 30) na reorganização dos textos, que muito provavelmente, não seria aprovada pelo seu mestre.
    Eis as principais alterações feitas por Porfírio na reorganização dos textos:
Dividiu os escritos artificialmente para chegar ao número total de 54 tratados. Para isto, dividiu textos e transformou capítulos em tratados. É improvável que ele tenha intencionalmente excluído textos, entretanto, não se sabe, se o pequeno texto guardado por Eusebius, o qual não consta nas Enéadas, era ou não, conhecido de Porfírio.
Não respeitou a ordem cronológica de redação dos tratados.
Organizou os tratados em seis grupos com nove tratados cada um (Enéadas).
Adotou uma ordem temática (parcialmente consistente) na organização dos tratados.

    Para os adeptos da leitura crítico contemplativa, toda esta reorganização dos textos, não é muito prejudicial, e a brincadeira numérica com os tratados, talvez tenha algum valor místico, pois 54 é o produto do número seis, considerado místico, gerado pela soma de 1+2+3, e do número nove, o maior número unitário antes da dezena. 6 x 9 = 54.
    Já para os adeptos da leitura crítico filosófica, a reorganização de Porfírio, não foi feliz e trouxe mais dificuldades do que proveito. As principais críticas são: A divisão dos prováveis 48 textos originais, em 54 tratados, é artificial e não tem razão filosófica de ser. A não preservação da ordem cronológica dos textos, em detrimento de uma divisão temática, dificulta a aquisição de uma visão geral da filosofia de Plotino, caso eles não sejam lidos de outra forma. A própria divisão temática é artificial e não totalmente consistente.

    Felizmente, Porfírio nos deixou documentada, a provável (existem dúvidas) ordem  cronológica dos textos de Plotino. No próximo texto, vou apresentar esta ordem e distribuição temática de Porfírio, assim como, a ordem e distribuição adotada por Richter.

Ezequiel Martins Paz

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