terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Plotino – As Dificuldades na Compreensão de Seus Textos

    Na postagem anterior, citei breves razões para mudar a maneira de apresentar os textos de Plotino aqui neste Blog. Antes, porém de reapresentar os textos em si, vou trazer uma curta série propedêutica, para auxiliar os interessados, na leitura e compreensão de Plotino.
    Também no texto anterior, Richter salientou uma notável falta de harmonia entre conteúdo e forma nos textos de Plotino. O que isto quer dizer mais explicitamente, e quais são as dificuldades mais evidentes para uma compreensão dos textos de Plotino, eu desejo apresentar aqui, em um curto comentário e tradução, ambos baseados em: Richter, Arthur. Neu-Platonische Studien – Halle 1867. Heft II Lehre vom Sein, pag. 19-20.

As dificuldades na compreensão dos textos - Comentário.

    Richter abre o segundo parágrafo da página 19 de seus estudos, com uma afirmação enfática sobre os tratados de Plotino. “Entretanto, assim como os tratados nos foram transmitidos, eles não são adequados para o uso filosófico e para a apresentação filosófica”. (RICHTER, 1867, Heft II, pag. 19) Esta observação de Richter, é oriunda de um profundo admirador de Plotino, o qual, tem como principal intenção, a tarefa de desvendar os pensamentos e conceitos, guardados no espírito deste filósofo. No entanto, segundo Richter, os próprios textos onde estes pensamentos e conceitos estão armazenados, não nos proporcionam, a princípio, um uso filosófico, pois eles nos fornecem uma imagem turva destes pensamentos e conceitos de Plotino. Assim como nos foram transmitidos, eles não são aptos também, para uma apresentação filosófica, pois é possível, e a História confirma isto, que conclusões e interpretações errôneas sejam lidas nestes textos, as quais, nada ou pouco tem a ver com a verdadeira filosofia de Plotino. Richter observa também, que nos textos plotinianos, não se nota uma harmonia entre o sentido e a expressão verbal do seu pensamento, e não se deve, para fins de valorizar a profundidade do conteúdo em detrimento da deficiência da forma literária, atestar um caráter romântico a seus escritos. As falhas literárias estão verdadeiramente lá, e são de fato erros de descuido, desleixe, falta de clareza no estilo e na apresentação. Não se deve negar, entretanto, que exatamente neste estilo se encontra a originalidade de Plotino, ao se deixar levar nas asas da alma, por entre poesias e silenciosas preces, até os mais profundos e intrínsecos pensamentos. Estes por sua vez, estão mesclados com imagens e elementos poéticos religiosos, sem esquecer, claro, os já mencionados erros literários. Talvez, entre outras razões possíveis e conhecidas, tenha sido também esta consciência, da natural desarmonia entre a essência do pensamento e a sua deficiente transliteralização para o mundo sensível, através de palavras ou símbolos escritos, que tenha levado Plotino a se abster, por quase 50 anos, de redigir definitivamente, a sua filosofia no papel. Pois, foi somente então, quando talvez já com cabelos grisalhos, que o mestre da metafísica se decidiu a copiar de sua alma, tudo aquilo que, com ela e através dela, havia estudado e discutido por tantos anos.
    Felizmente, nem tudo nos textos de Plotino é obscuridade. Se bem que, muitas pequenas partes isoladas, ainda continuam e continuarão ainda por algum tempo, se negando a revelar o seu sentido, o essencial da filosofia plotiniana, os seus pensamentos básicos, seus conceitos filosóficos, a sua mensagem reflexiva e metafísica, são claros e compreensíveis, quando lidos no contexto correto. Ler no contexto significa neste caso, que os textos devem fazer sentido primeiro dentro dos tratados e estes últimos, por completo, devem se relacionar uns com os outros, para que se possa obter, uma imagem geral da filosofia de Plotino. Uma abordagem temática dos textos, com base em uma coletânea de textos, extraídos de vários tratados, não é encorajada por Richter.

Tradução do texto:
A obscuridade de Plotino se baseia, abstraindo-se as más condições e falhas nos manuscritos, primeiro em uma enigmática brevidade das expressões, em uma apresentação condensada, que em poucas palavras resume sucintamente um enorme circulo de pensamentos, e frequentemente, mal da a entender {que o pensa}. Por outro lado, também não faltam amplas pormenorizações, repetições e contradições. – Às vezes, ele se perde em um pico de abstração, onde, raramente a realidade corresponde aos seus pensamentos, uma abstração com a qual, temos a ver certamente, só com jogos de pensamento ou divagações, e então, novamente, ele não consegue manter o pensamento de forma puramente abstrata, e cai de volta na representação, ou não consegue se livrar dela. Os pensamentos principais não se destacam suficientemente; uma das falhas essenciais é, a muito frequente utilização por Plotino, de frases em forma interrogativa. Plotino acumula interrogações sobre interrogações sem dar respostas. Mesmo que a partir destas interrogações o pensamento investigativo do filósofo se pronuncie, elas nos deixam, entretanto, muito frequentemente sem clareza sobre a intenção e o ponto de vista do filósofo. Mas, não somente o pensamento básico principal e de coesão, também as transições e os resultados precisam ser primeiramente procurados e às vezes adivinhados. A isto, se deve adicionar ainda, inúmeras insinuações sobre termos e conceitos de seus antecessores, que quase não são esclarecidos, e sobre os quais, faltam às necessárias informações. Com isto, o caminho através dos escritos de Plotino, tem os seus muitos espinhos, e surge assim, uma difícil tarefa filosófica, de descobrir, desta insuficiente forma, o conteúdo especulativo e conceitual”. (RICHTER, 1867, Heft II, pag. 20)
(RICHTER, 1867, Heft II, pag. 20)

Ezequiel Martins Paz
Palavras entre [] são do Autor Alemão
Palavras entre {} são do Tradutor.

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