sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Plotino – Sobre a Essência da Alma – Parte 02


    Este texto se encontra na Enéada IV, Livro 2. Plotino continua o seu estudo sobre a essência da alma. É Importante no entanto observar que, quando Plotino utiliza o termo traduzido e consagrado na maioria dos textos como “inteligível”, ele está se referindo ao “espírito” como hipostases, ou seja, ao espírito como ser substancialmente real e existente. Se isto não ficar claro é provável que não se irá compreender o texto de Plotino.
Para manter a fidelidade ao texto Alemão, estarei utilizando também o termo “inteligível”, mas sou a favor da tradução “espírito” já utilizada na Europa por alguns estudiosos de Plotino como: Arnou (Le désir de Dieu dans la philosophie de Plotin, París, 1921), Inge (The philosophy of Plotinus, London, 1918), Heinemann (Plotin, Leipzig, 1921).
Sobre a Essência da Alma

1_    Se no estudo sobre a essência da alma nós temos comprovado, que ela não é nada corpóreo nem a harmonia nas coisas corpóreas, e deixamos para lá o ponto de vista da enteléquia, que assim como é apresentada nem é verdadeira, nem desvenda a essência da alma, se nós entretanto afirmamos sua natureza inteligível e lhe concedemos uma participação no divino: então nós temos talvez expressado algo claro e preciso sobre sua essência. Mesmo assim é melhor adentrar em um estudo adicional.
Anteriormente nós a temos dividido diferenciando entre uma natureza sensível e inteligível, sendo que colocamos a alma no reino dos inteligíveis. Mas agora mesmo que ela mantenha seu lugar no inteligível, nós queremos entretanto por um outro caminho procurar as peculiaridades de sua natureza.
Nós dizemos então, que as coisas são em parte originalmente divisíveis e através de sua própria natureza dispersas. Estas são as coisas, das quais nenhuma parte é exatamente igual nem à uma outra parte nem à totalidade, das quais a parte deve ser menor do que a totalidade vista em conjunto. Estas são entretanto as grandezas sensorialmente perceptíveis e as massas, das quais cada uma ocupa seu lugar especial no espaço e não pode estar ela mesma ao mesmo tempo em vários lugares.
Ela pelo contrário é um destes seres opostos, que em lugar nenhum permite uma divisão, não dividida e indivisível, que nem mesmo na imaginação permite um entre espaço, não necessita de espaço, não está disponível em nenhuma das coisas disponíveis nem parcialmente nem integralmente, que por assim dizer paira simultaneamente sobre todas as coisas, não para nelas tomar um lugar, mas sim porque a outra coisa não pode nem quer estar sem ela, um ser continuamente idêntico a si mesmo, comum a todas as coisas apões ela em sua hierarquia assim como no circulo o centro, do qual todas as linhas que se estendem para a periferia são dependentes sem lhe deslocarem de seu lugar, do qual elas tem a sua origem e a sua existência: Assim como elas participam neste ponto central e o indivisível é o seu princípio, assim também elas partem dele sendo que nele elas se prendem.
Já que esta é portanto originalmente indivisível no inteligível e a origem para o existente e como entretanto aquilo {que existe} no sensorialmente perceptível é absolutamente divisível, então existe antes do sensorialmente perceptível e próximo a ele e nele uma outra natureza, a qual não é na verdade originalmente divisível como os corpos, mas se torna de fato divisível nos corpos, assim que na divisão dos corpos também a forma neles é dividida, mas que permanece mesmo assim uma totalidade em cada parte, ainda que esta mesma coisa se torne muitas, das quais cada uma está totalmente distante da outra, exatamente porque  se tornou totalmente divisível.
De tal modo são as cores e todas as qualidades e qualquer forma, as quais podem estar integralmente em muitas coisas separadas umas das outras, sendo que não possuem nenhuma parte, que da mesma maneira como as outras é afetada. Por isto se deve então aceitar também estas como totalmente divisíveis.
Mas além daquela natureza absolutamente indivisível existe uma outra originando-se diretamente dela, a qual possui na verdade a indivisibilidade daquela {primeira}, mas se impele em um avançado afastamento dela  para a outra natureza ficando assim no meio de ambas, a saber da indivisível e primeira e da corpórea, com relação aos corpos divisíveis; não de fato da mesma maneira, como a cor e qualquer multiplicidade da qualidade são as mesmas em muitas massas corpóreas, mas sim que esteja aderente em cada uma entretanto das outras separada, assim como também aquela uma massa se encontra separada das outras.
E mesmo que a grandeza seja uma, ela não tem de fato no que é idêntico em cada um nenhuma associação com relação ao mesmo afeto, porque este idêntico é diferente daquele outro; pois o afeto é o idêntico, não igualmente a mesma essência. Mas aquela, que segundo a nossa afirmação se encontra nesta natureza e se aproxima do ser indivisível, é um ser e se distribui nos corpos, nos quais ela se torna também dividida, enquanto que ela antes de sua entrega para os mesmos  não sofria isto.
Seja qual for o corpo que ela agora habite, possa ele ser o maior e se estendendo por sobre tudo, mesmo apesar de sua entrega a totalidade ela não deixa de ser uma: uma, não como o corpo é um, pois através da continuidade o corpo é um, mas cada parte é uma outra e em outro lugar.
A natureza simultaneamente divisível e indivisível; tal qual nós recentemente caracterizamos a alma, não é como aquela uma contínua com diferentes partes, mas sim é ela divisível, pois ela se reparte em cada parte daquilo onde ela está, indivisível, porque ela está inserida integralmente em toda e cada parte daquela mesma coisa. E quem observar isto, este vai compreender a grandeza da alma e seu poder, que coisa divina e espantosa há ao redor dela, de fato que ela pertence para uma natureza elevada acima de todas as coisas. Mesmo sem grandeza ela habita em todas as grandezas, e existindo desta maneira ela não existe entretanto desta maneira, não através de algo outro, mas sim através dela mesma. Por isto ela é divisível e também não, divisível, na verdade ela não está dividida nem se tornou uma dividida. Pois ela permanece em si integra, mas com relação aos corpos ela está dividida, já que os corpos por causa de sua própria divisibilidade não a recebem indivisível. Então a divisão é um afecção dos corpos, não da alma.
Ueber das Wesen der Seele

1_    Wenn wir bei der Untersuchung über das Wesen der Seele den Nachweis geführt haben, dass sie nichts körperliches sei noch auch die Harmonie in den körperlichen Dingen, und die Ansicht von der Entelechie, die weder sowie sie dargestellt wird wahr ist, noch das Wesen der Seele enthüllt, auf sich beruhen lassen, wenn wir vielmehr ihre intelligible Natur behaupten und ihr einen Antheil am Göttlichen zusprechen: so haben wir vielleicht etwas klares und deutliches über ihr Wesen ausgesagt. Gleichwohl ist es besser in eine weitere Untersuchung einzutreten.
Damals haben wir sie zwischen einer sinnlichen und intelligiblen Natur unterscheidend getheilt, indem wir die Seele in das Reich des Intelligiblen setzten. Jetzt aber möge sie immerhin im Intelligiblen ihren Platz behalten, wir wollen indessen auf einem anderen Wege das Eigenthümliche ihrer Natur ausfindig machen.
Wir sagen also, die Dinge sind einestheils ursprünglich theilbar und durch ihre eigene Natur zu zerstreuen. Das sind die Dinge, von denen kein Theil weder einem andern Theil noch dem Ganzen völlig gleich ist, von denen der Theil kleiner sein muss als das Ganze zusammengenommen. Dies sind aber die sinnlich wahrnehmbaren Grössen und die Massen, von denen jede einzelne ihren besondern Raum einnimmt und nicht zugleich ein und dieselbe an mehreren Orten sein kann.
Sie hingegen ist eine dieser entgegengesetzte Wesenheit, die nirgend eine Theilung zulässt, unzertheilt und untheilbar, die nicht einmal in der Vorstellung einen Zwischenraum zulässt, keinen Raum bedarf, in keinem der vorhandenen Dinge vorhanden ist weder theilweise noch ganz, die gleichsam über allen Dingen zugleich dahinschwebt, nicht um in denselben einen Platz einzunehmen, sondern weil das andere ohne sie nicht sein kann noch will, eine stets sich gleich bleibende Wesenheit, gemeinsam allen Dingen in ihrer Abstufung wie das Centrum im Kreise, von welchem alle zur Peripherie hin laufenden Linien abhängig sind ohne es aus seiner Stellung zu verrücken, von welchem sie ihren Ursprung und ihr Sein haben: wie sie an diesem Mittelpunkt Theil nehmen und das Ungetheilte ihr Anfang ist, so gehen sie von ihm aus indem sie sich dort anheften.
Da dies also ursprünglich untheilbar ist im Intelligiblen und der Ursprung für das Seiende und wiederum das im sinnlich Wahrnehmbaren durchaus theilbar ist, so giebt es vor dem sinnlich Wahrnehmbaren und nahe bei ihm und in ihm eine andere Natur, welche zwar nicht ursprünglich theilbar ist wie die Körper, aber doch theilbar wird in den Körpern, so dass bei der Theilung der Körper auch die Form an ihnen zertheilt wird, aber dennoch ganz in einem jeden Theile bleibt, wobei ebendasselbe vieles wird, von dem jedes einzelne gänzlich vom andern entfernt ist, eben weil es durchaus theilbar geworden.
Derartig sind die Farben und alle Qualitäten und jegliche Gestalt, welche ganz in vielen von einander getrennten Dingen zugleich sein kann, indem sie keinen Theil hat, der in gleicher Weise wie der andere afficirt wird. Daher muss man denn auch diesen als durchaus theilbar annehmen.
Ausser jener durchaus untheilbaren Natur aber giebt es eine andere unmittelbar von jener stammende, welche zwar die Untheilbarkeit von jener hat, aber im weitem Fortgang von ihr aus zu der andern Natur hinstrebt und so in die Mitte beider zu stehen kommt, nämlich der untheilbaren und ersten und der körperlichen, hinsichtlich der Körper theilbaren; nicht zwar in der Weise, wie die Farbe und jegliche Qualität vielfach dieselbe ist in vielen körperlichen Massen, sondern das einem jeden Inhärirende steht von dem andern durchaus getrennt, wie auch die eine Masse von der andern getrennt dasteht.
Und wenn auch die Grösse eine ist, so hat doch das in einem jeden Identische keinerlei Gemeinschaft behufs gleicher Affection, weil dieses Identische ein anderes ist als jenes; denn Affection ist das Identische, nicht zugleich dieselbe Wesenheit. Diejenige aber, welche nach unserer Behauptung an dieser Natur sich findet und an die untheilbare Wesenheit herantritt, ist eine Wesenheit und theilt sich den Körpern mit, an denen sie denn auch zertheilt wird, während sie vor ihrer Hingabe an dieselben dies nicht erlitt.
Welchen Körpern sie nun auch innewohnt, mag dies auch der grösste und über alles sich ausdehnende sein, so hört sie trotz ihrer Hingabe an den ganzen doch nicht auf eine zu sein: eine, nicht wie der Körper einer ist, denn durch die Continuität ist der Körper einer, jeder der Theile aber ist ein anderer und anderswo.
Die zugleich theilbare und untheilbare Natur; als welche wir eben die Seele bezeichnen, ist nicht wie das Continuirliche eine mit verschiedenen Theilen, sondern sie ist theilbar, weil sie sich allen Theilen dessen in dem sie ist mittheilt, untheilbar, weil sie ganz in allen und jeden Theilen desselben enthalten ist. Und wer dies beobachtet, der wird die Grösse der Seele und ihre Macht verstehen, welch ein göttliches und staunenswerthes Ding es um sie ist, ja dass sie zu den über alle Dinge erhabenen Naturen gehört. Selbst ohne Grösse wohnt sie jeder Grösse bei, und in dieser Weise existirend existirt sie wiederum nicht in dieser Weise, nicht durch etwas anderes, sondern durch eben dasselbe. Daher ist sie getheilt und auch wieder nicht, getheilt, vielmehr sie ist nicht getheilt noch zu einer getheilten geworden. Denn sie bleibt in sich ganz, aber hinsichtlich der Körper ist sie getheilt, da die Körper in Folge ihrer eigenen Theilbarkeit sie nicht ungetheilt aufnehmen. Also die Theilung eine Affection der Körper, nicht der Seele.









Ezequiel Martins Paz
Tradução do texto alemão de Hermann Friedrich Müller, 1878.
Palavras entre [] são do Autor Alemão
Palavras entre {} do Tradutor.

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