quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Plotino - Parte 01

1.0 PLOTINO SUA OBRA E PENSAMENTO
1.1 CONTEMPLADOR E FILÓSOFO
Todas as informações que possuímos sobre Plotino, nos foram transmitidas por seu pupilo Porfírio, que as divulgou após a morte de seu mestre, em um pequeno escrito chamado “Vita Plotini” [Vida de Plotino], considerada uma preciosidade entre as biografias da antiguidade (O´MEARA 1993, p. 2).
Porfírio anexou este escrito como introdução da sua edição dos tratados de Plotino. Segundo O´Meara (1993, p. 3), um dos objetivos de Porfírio com a “Vita Plotini”, era de introduzir Plotino aos leitores como o filósofo ideal, envolto em uma aura de glória. Não se deve no entanto, penalizar Porfírio por isto, pois, ainda segundo (O´MEARA 1993, p. 3), esta era uma prática aparentemente comum nas biografias da época. Porém, quanto mais se estuda Plotino, tanto como filósofo, quanto como pessoa, mais passa-se a admirá-lo e a tê-lo com tanto carinho, que se torna difícil não vê-lo assim como Porfírio, quase como o filósofo ideal.
Conforme Porfírio (VITA PLOTINI, 2), Plotino nasceu provavelmente na cidade de Licópolis no Egito em aproximadamente em 204 d.C. e faleceu em Campania, na casa de um falecido amigo, no ano de 270 d.C. com 66 anos de idade. Não se sabe nem o dia nem o mês de seu nascimento pois, Plotino se recusava a revelar, e também, a comemorar seu próprio aniversário (VITA PLOTINI, 2).
Ele começou a estudar filosofia aos 27 anos na cidade de Alexandria no Egito, cidade esta, que era considerada como, o ponto de encontro dos grandes pensadores do ocidente e do oriente. A língua grega era a língua oficial nas colônias romanas, e o Egito era uma destas colônias na época. Assim sendo, o Grego era a língua predominante entre os intelectuais em Alexandria e em todo o oriente. O grego era a língua de Plotino.
Após ter ouvido os melhores mestres de Alexandria e não ter se satisfeito com nenhum deles, Plotino encontrou Amônios Sacas (de quem sabemos muito pouco) e disse: “Este era o homem que eu estava procurando” (VITA PLOTINI, 3).
Plotino estudou com Amônios por onze anos e após este período, alegando o desejo de conhecer a sabedoria da Pérsia e da Índia, juntou-se a expedição militar do Imperador Gordian III contra os Persas. O imperador morreu a caminho e Plotino se refugiou em Antioquia. De lá foi para Roma onde fundou uma escola e começou a ensinar filosofia. Por sua grande sabedoria e carisma, Plotino reuniu muitos nobres entre seus ouvintes, os quais, que lhe garantiam a subsistência e moradia, como por ex. o Imperador Gallienus (253 – 268) e sua  esposa Salonina (VITA PLOTINI, 12).
Plotino não exigia honorários para as suas preleções, que começavam normalmente com uma leitura dos textos ou comentários clássicos de Platão, Aristóteles, Epicúro e do Estoicismo. Após a leitura seguia-se uma explanação do texto por Plotino e então, um período de perguntas, respostas e debates. Porfírio cita alguns autores que eram lidos nas preleções, entre os quais estavam: Severus, Cronius, Numenius, Gaius, Atticus (Os Platonistas), Aspasius, Alexander de Afrodísias, Adrastus (Os Aristotelianos) (VITA PLOTINI, 14). Os alunos de Plotino, eram em sua maioria, intelectuais e pensadores com conhecimentos prévios de filosofia.
Apesar de se considerar um platonista, o pensamento de Plotino foi muito influenciado também por Aristóteles e pelo epicurismo. Na verdade, os escritos de Plotino estão permeados do pensamento de Aristóteles, e não é de admirar, ao se tomar consciência da lista no parágrafo anterior, os magníficos comentários que estavam a sua disposição.
Plotino começou a escrever somente aos cinquenta e nove anos (VITA PLOTINI, 4), ou seja, após ter avaliado, reavaliado e debatido profundamente sua filosofia. O interessante no estilo literário de Plotino é seu contínuo diálogo com um interlocutor imaginário, altamente competente, que lhe impõe as mais diferentes questões, ou contesta suas respostas. Assim, cada tema é discutido extensa e profundamente, como se Plotino estivesse relembrando suas preleções com seus pupilos.
Plotino era venerado pelos seus discípulos. Possuía grande sabedoria e uma mente racional e crítica que chegava imediatamente ao cerne das questões. Mas Plotino era também profundamente espiritual, e isto lhe capacitava a penetrar em pensamento no transcendente, e até mesmo, a chegar ao êxtase com o Uno. Segundo Porfírio, Isto ocorreu apenas quatro vezes, no período em que estavam juntos (VITA PLOTINI, 23).
No seu leito de morte, junto de seu íntimo amigo, companheiro e doutor Eustochius, após expressar suas últimas, sábias e profundas palavras: “eu estou me esforçando para dar de volta o divino em mim para o divino no universo”, uma cobra se escondeu de baixo de sua cama (VITA PLOTINI, 2) e Plotino expirou.
Mas apesar de sua escola não ter sobrevivido, a sua voz ainda não calou, seu espírito continua vivo em nossos dias, pois como ele próprio dizia, ao se referir ao processo de subida para o mundo espiritual: No que consiste a subida? Em assemelhar-se a Deus” (ENÉADAS I. 2,1); E o autor deste texto adiciona: E os Deuses são eternos!

1.2 SUA ÉPOCA
Uma obra como a de Plotino, se torna incompreensível se for lida simplesmente como um tratado filosófico, baseado no pensamento grego, ou em crenças místicas. Por isto, se faz necessário conhecer o espírito da época, que influenciou Plotino, seu pensamento e a sua obra. Devido ao forte vocabulário espiritual, a enorme quantidade de imagens e simbolismo em seus escritos, ao se estudar Plotino, sem outras fontes adicionais, pode-se cair no erro de considerá-lo simplesmente um místico religioso com ideias filosóficas. Esta tendência ganha força quando se reconhece a influência de Plotino nos grandes vultos da mística cristã, como por exemplo, Gregório de Nicéia, Augustinho, Pseudo-Dionísio, Mestre Eckhardt e Jacob Boehme (O´MEARA 1993, p. 63). Mas como diz O´Meara (1993, p. 64), se deve evitar anacronismos, principalmente a dicotomia moderna entre, místico contra racionalista”, ou seja, não se deve enquadrar Plotino com olhos modernos, mas sim deixá-lo ser o que ele era, dentro da época onde ele viveu. E para lá nos remete Brehier em seu importante relato.
Segundo E. Brehier (1953, p. 9), no primeiro século de nossa época, surgiram no Egito várias comunidades de um gênero totalmente diferente de pessoas. Estas comunidades, se opuseram á filosofia estóica predominante da época, que postulava uma visão prática da filosofia, ou, uma filosofia voltada para a prática. Estas mesmas comunidades, se isolavam da vida civil e política, consagrando-se inteiramente a contemplação divina. Ainda segundo Brehier (1953, p. 9), Filon de Alexandria testifica a existência destas comunidades. É importantíssimo no entanto, não confundir estas comunidades com grupos religiosos. Plotino foi influenciado por estes grupos de contempladores, e esta maneira distinta de viver e pensar, se reflete na sua vida e nos seus escritos, assim como podemos ler no seguinte relato; Segundo Porfírio, em várias oportunidades Plotino demonstrou não ter interesse em ritos religiosos e sacramentos. Seu pupilos mais íntimos e queridos, Amelius e o próprio Porfírio, se envolviam em rituais religiosos, sacrifícios e consultas a oráculos. Em uma certa ocasião, Amélio, que observava piamente as datas sagradas como a da lua nova, convidou Plotino a participar de um ritual. Ele rejeitou com as seguintes palavras: “A los dioses corresponde venir a buscarme y no a mí salirles al encuentro.” (BREHIER 1953, p. 150)  A tradução inglesa para esta mesma passagem, diz o seguinte: “Eles (os deuses) é que devem vir a mim, não eu ir a eles”. (O´MEARA 1993, p. 4) Este relado, é importantíssimo para se fazer uma correta visão de Plotino, e não taxá-lo de místico religioso. No entanto, o estudo de Plotino se torna ainda mais fascinante, quando se tem em mente que ele, que por um lado, era um admirável filósofo, com a capacidade de apresentar a realidade dentro de um sistema estritamente filosófico racional, conforme leis necessárias, e por outro, sem sobrevalorizar rituais religiosos e sacramentos, carrega seus escritos com linguagem espiritual. Como explicar isto? Brehier propõe uma explicação usando as duas vias de acesso ao Bem (Deus) postuladas por Plotino e copiadas do seu mestre Platão.
“Por acaso não é Platão, o mestre por excelência, quem lhe proporcionou o modelo? Plotino distinguiu, como disse, um duplo acesso ao Bem: O conhecimento da graduação ascendente dos seres mediante o raciocínio, e a purificação (VI, 7, 36). Mas Platão, antes do que ele, havia falado  das duas vias para retornar ao principio: a dialética racional que procede por indução, e a dialética do amor, a do Fedro, quando a alma, presa da loucura do desejo, tem uma intuição súbita e inefável do bem. E a purificação, como o Fédon a descreve, não é também um meio de conseguir a contemplação? Os dois aspectos da noção do bem em Plotino, o intelectual e o místico, corresponderiam, então, a esta dupla via de acesso que Platão ensinava”. (BREHIER 1953, p. 188)
Plotino almejava com sua filosofia o reencontro com o Bem, o Uno, ou como se poderia dizer na linguagem atual, com Deus. Para Plotino, como é possível perceber no texto de Brehier, os caminhos para alcançar o acesso ao Bem são: o intelectual, através da filosofia, e o místico, através da contemplação.
É importante repetir e enfatizar que, não se deve confundir a espiritualidade de Plotino com religiosidade, práticas de mágica ou feitiçarias. A filosofia e a espiritualidade de Plotino caminham juntas e formam um sistema para, através da contemplação, levar o homem a compreender o mundo sensível e espiritual, conhecer-se a si mesmo e chegar ao Bem absoluto, a saber, Deus. Neste sistema não há lugar para agrupamento religiosos, rituais e sacramentos que agradem os Deuses, e nem mesmo para um Deus salvador. É a nossa própria alma que, com inteligência e contemplação, deve se colocar a caminho do Uno. A Filosofia de Plotino parte do espiritual, chega até o mundo sensível, e penetra no ser humano. Partindo do ser humano, que volta-se para si mesmo e que procura através da alma conhecer a si mesmo, Plotino apresenta os dois caminhos para retornar a esfera espiritual, ao Uno. Porém, Plotino se destaca, por não desprezar a realidade, o mundo sensível.
Em toda sua filosofia, Plotino deixa claro que, somente se pode explicar a realidade quando se tem o ponto exato onde ela se integra na corrente espiritual. Ou seja, Plotino não está suspenso no espiritual e descrente do real. Para Plotino o real existe e é belo, mas somente pode ser explicado através da corrente espiritual.
Para finalizar este subitem, cabe ainda esclarecer um ponto sobre a visão do Uno de Plotino. Devido a sua afirmação “O Uno é todas as coisas e não é em particular nenhuma delas” (ENÉADAS, V. 2.1), postula-se que Plotino seja um panteísta, ou seja, que ele acredite que o Uno e o universo sejam idênticos ou, a mesma coisa. Plotino não defende o panteísmo mas sim, o panenteísmo, onde todas as coisas estão inseridas no Uno, mas o Uno é superior a todas elas.

1.3 AS ENÉADAS
As Enéadas são o resultado das discussões realizadas na escola de Plotino. Ele escrevia dando mais valor as idéias que lhe vinham a mente, do que a esquemas literários. Mesmo assim, devido a vasta experiência de Plotino, seus escritos são tão inspiradores e cativantes, como o era a sua fala. E, a filosofia de Plotino, assim como a de Platão, era uma filosofia falada, dialogada, discutida. Assim deve-se ter as Enéadas em mente, como um diálogo de Plotino com um parceiro imaginário e com seus pupilos.
Após a morte de Plotino, sua escola não sobreviveu. Porfírio editou e publicou os tratados de Plotino. Ele os dividiu alguns até conseguir a quantidade de cinquenta e quatro tratados, e então, agrupou-os em seis grupos de nove (Enéadas em grego).
Os estudiosos postulam que, Porfírio desejava alcançar um numero místico que fosse o produto do número perfeito 6 (6 é o resultado de 1+2+3 ou 1x2x3) multiplicado pelo número 9, que simboliza a totalidade pois é o maior número não composto de 1-10. As Enéadas se constituem então de 6 grupos, e cada um deles contém 9 tratados. Porfírio não só dividiu alguns tratados, mas também os publicou em uma ordem diferente da cronológica. Segundo os estudiosos, esta alteração foi feita com a intenção de iniciar o leitor, de forma ascendente, partindo das coisas sensíveis, passando pela alma e pelo espírito, até chegar ao Uno. Felizmente Porfírio deixou especificado na biografia de Plotino, a ordem cronológica dos tratados e quais foram divididos (VITA PLOTINI, 4 – 6).
No ocidente, as Enéadas influenciaram muitos cristãos, incluindo: Eusebius de Cesaréia, Gregório de Nicéia, e Augustinho de Hippo. Segundo Possídius, o biógrafo de Augustinho, foram as palavras das Enéadas (I. 4. 7, 24-25) que consolaram Augustinho na hora de sua morte (VIDA DE AGOSTINHO, 28).
No século X, as Enéadas IV-VI ficaram conhecidas na Arábia, e foram denominadas por Teologia de Aristóteles. Elas foram lidas por grandes filósofos como Al-Farabi e Avicenna (CORRIGAN 2005, p. 236). No século XI, Constantinópoles se tornou o centro de estudo do neo-platonismo, e de lá, herdamos as mais antigas cópias das Enéadas (do século XII e XIII).
Segue uma lista de outros grandes nomes, influenciados pelas Enéadas: Tomas de Aquino, Boaventura, Nicolas de Cusa, Marsilio Ficino, Giordano Bruno, Leibnitz, Imannuel Kant, Goethe, Schelling, Hölderlin, Hegel, Henry Bergson, Alfred North Whitehead, Ralph Waldo Ermerson, entre outros.
A primeira tradução completa das Enéadas para o Latim foi realizada em 1492 por Marsilio Ficino, que considerava Plotino como Platão redivivo. Esta tradução causou o primeiro reavivamento de Plotino. Quatrocentos anos mais tarde, ocorreu um outro importante evento nos estudos de Plotino. A edição científica das Enéadas por Paul Henry e Hans-Rudolph Schwyzer em 1951-73.
Atualmente na Europa, principalmente Alemanha e França, cada vez mais as atenções se voltam para a obra de Plotino, considerado o mais criativo filósofo entre o período final de Platão até a chegada de Augustinho (O´MEARA, 1993, p. 1). Infelizmente, até esta data, a obra principal de Plotino, as Enéadas, ainda não foram traduzidas totalmente para o português. A falta das Enéadas em português, significa uma grande perda para a filosofia brasileira, se levar-se em conta a enorme influência que esta obra teve na filosofia ocidental e oriental.

BREHIER, EMILE. LA FILOSOFIA DE PLOTINO. Buenos Aires: Editorial Sudameridana, 1953. Tradução: LUCÍA PIOSSEK PREBISCH.

O´MEARA, J. DOMINIC. AN INTRODUCTION TO THE ENNEADS. Oxford: Clarendon Press, 1993.

CORRIGAN, KEVIN. READING PLOTINUS – A PRACTICAL INTRODUCTION TO NEOPLATONISM. West Lafayette: Purdue University Press, 2005.

Ezequiel Martins Paz

Um comentário:

  1. Adorei a apresentação de Plotino.....Que bom que você voltou a postar....
    Beijos

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